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sábado, setembro 25, 2004

Maturidade

A chegada da maturidade traz algumas mudanças no comportamento. Começamos a nos demorar mais em algumas tarefas que na juventude eram feitas as pressas.

Ficar horas em uma livraria foleando alguns livros, revistas, ouvindo cd´s.
Passeando no supermercado escolhendo um vinho.

Mas um habito que adquiri foi observar ainda mais as mulheres.

Hoje mesmo, na hora do almoço, enquanto saboreava algumas tulipas cremosas de chopp, fiquei olhando o vai e vem de mulheres no shopping.

Todos os tipos, cores, corpos e roupas. Todas belas, respeitando e sabendo observar o que há de belo em cada mulher.

Passaram várias "patys" com seus corpinhos magros, deliciosos, seios túrgidos e carnes tenras. Corpos que parecem pedir por um abraço, um aperto. Algumas delas, junto com a mãe se esforçando para acompanhar as filhas tanto nas roupas quanto no corpo. Destas algumas se destacam, com corpos e beleza melhores ainda que as delas

Enquanto uma loira gela minha lingua deliciosamente, uma outra passa, corpo escultural, top branco com seios fenomenais e quadris que suavemente chamavam a atenção. Dentes muito brancos, olhos castanhos claros, uma musa, com certeza.

Logo atrás uma morena bem baixinha, tipo atarracado mas um cabelo negro até a altura da "derriére" exaltando a beleza brasileira. Olhos muito negros pedindo um olhar mais profundo.

Um grávida, com uma barriga de 7 ou 8 meses mostrando a beleza da fêmea reproduzindo, beleza essa que cativa a nós homens

Obviamente não apenas as lindas caminham mas todas estão produzidas, procurando destacar os seus pontos fortes, mostrando que também são belas, da sua maneira

Um tipo muito caracteristico passou em uma turma de 3 mulheres, na faixa de 30 anos, decididas, confiantes em si, corpos sarados, independentes.

Que chopp delicioso...

terça-feira, setembro 14, 2004

You have a new mail

"You have a new mail"
O aviso piscou no canto da tela do computador dele.
Mecanicamente, acionou o programa de emails e esfriou totalmente ao ver quem havia mandado a mensagem.

Estava esperando pela resposta do bilhete desde o dia anterior. Naquele dia um olhar através de dois pares de lentes de óculos aconteceu. Percebera que a sua colega da mesa em frente estava olhando para ele.

Ambos muito tímidos, fitaram-se por uma fração de segundos e ficaram vermelhos de vergonha. Ele engasgou e teve que ir tomar um copo de água para passar o nervosismo. Ela ficou lá na mesa dela, de cabeça baixa.

Meia hora depois, quando ela se levantou para ir almoçar sem nem sequer dizer "tchau", ele rabiscou um bilhete, nervoso, para ela.

Ele voltou mais cedo do almoço e colocou o bilhete em cima do teclado para que ela achasse quando voltasse.

Ela voltou, leu o bilhete e ficou muito vermelha se recusando a olhar para o lado dele.

Ele esperou, esperou... Foi embora desconsolado.

"You have a new mail"
Era a resposta dela!
O subject do email era apenas "Bilhete"
Ele hesitava em abrir o email e ler se a sua paixão recolhida era correspondida ou se ela apenas iria descartá-lo raivosamente.

Meia hora depois apagou o email sem o ler.

Preferia acreditar em 50% de chance de um amor do que correr o risco da certeza do desprezo...


segunda-feira, setembro 13, 2004

Momento Mário Quintana

Se tu me amas,
ama-me baixinho.

Não o grites de cima dos telhados,
deixa em paz os passarinhos.

Deixa em paz a mim!

Se me queres,
enfim,

tem de ser bem devagarinho,
amada,

que a vida é breve,
e o amor
mais breve ainda.

sábado, setembro 11, 2004

Abandono

Acordo assustado. Abro os olhos e vejo o mundo girar a minha volta.
Náuseas sobem a minha boca, o vômito é incontrolável. Não entendo o que se passa. Desespero.
O que está acontecendo?
Tento abrir os olhos, tudo roda novamente.
Desfaleço.
O tempo passa enquanto eu estou ali, inerte, sem noção do que se passa ao meu redor.
Acordo novamente, mas não me atrevo a abrir os olhos, fico ouvindo os ruídos do corredor. Procuro me lembrar onde estou. Hotel, isso, estou em um hotel. Ouço o barulho no corredor das camareiras indo e vindo na sua faina de arrumar os quartos, tomara que uma delas entre no meu quarto e me descubra.
Ouço depois de uma meia hora (eu acho) um leve bater na porta, grito ou pelo menos parece que gritei. Angústia.
Novo bater a porta, alguém tenta abrir com uma chave mestra e logo vai embora.
Desespero.
Tento gritar, abro os olhos e novamente o vômito me sufoca, viro-me de lado para deixar que saia. O cheiro nauseabundo me arde as narinas mas não tenho forças de me virar ou sair da cama. Tudo roda ao meu redor.
Depois de dormir novamente, eu acordo com a bexiga cheia. Como ir ao banheiro se nem abrir os olhos eu consigo?
Escorrego para o chão e vou me arrastando para onde eu acho que deve estar a porta do banheiro, parecem quilômetros os poucos metros da cama até o chão frio de cerâmica. O que está acontecendo comigo? Tumor? Derrame?
Nuvens de pensamentos passam pela minha cabeça até que o chão frio do banheiro toca a minha cabeça. Torço o meu corpo e tento me aproximar do vaso. O cheiro do vômito no meu corpo me enoja. Queria tomar um banho. Engraçado como uma coisa tão simples e próxima como tomar um banho estando dentro de um banheiro está a tantos quilômetros de distância.
Acabo de contorcer o corpo e tento urinar dentro do vaso, mas as tonturas me chicoteiam o cérebro novamente.
Acho que vou desmaiar...

....

Acordo mais tarde, sem chance de saber que horas são. Tento abrir os olhos, mas nem isso consigo. Pernas? imóveis. Braços? Duros...
Mas sei que não estou mais no hotel. A cama agora é dura e fria, parece uma chapa de metal. Sinto o calor distante de uma lâmpada acesa sobre o meu corpo. Parece que estou nu.
Ouço barulhos de passos em algum corredor perto daqui, onde diabos eu estou?
O tempo passa, devo ter dormido e acordado
algumas vezes mas não tenho a mínima noção de quanto tempo se passou desde que comecei a passar mal.
Alguns passos vêm se aproximando, ruídos de uma porta velha se abrindo e uma lufada de ar melhora o cheiro de formol que me cerca.
Duas pessoas entram e se acercam da minha cama.
Vozes aparecem:
- Hehe, mais um, doutora, para a senhora examinar - era uma voz de um rapaz
- Respeito - Uma voz feminina de uns 40 anos
- Que isso! O cara tá morto mesmo!

Morto!?!?!

A cabeça rodopia novamente e lá vai minha consciência pelo ralo...

Acordo com barulhos de metal sendo manipulado. Algo que parecem talheres são ajeitados em uma bandeja bem ao meu lado. Ouço a voz do rapaz, abafada por um sanduíche:
"eu vou fazer de um jeito que ela não vai esquecer..."
O barulho daqueles metais me lembram o porque do meu último desmaio.
Estou morto? Como pode ser isso? Sinto meu corpo, apenas não consigo me mexer. Ouço sons, sinto os cheiros (formol) ao meu redor, até mesmo o frio da cama/mesa onde estou.
Não pode ser! Isso só pode ser um pesadelo! Tento mexer um dedo, braço seja lá o que for. Nem que seja para que um pingo de suor escorra pela minha testa e esse imbecil pós-adolescente possa perceber a merda que estão para fazer. Autopsiar um vivo!
Nada, nem um único fiapo de movimento. Apenas minha cabeça parece se movimentar nesse escuro inferno a que estou reduzido.
Novamente ouço passos se aproximando, passos macios, passos de mulher.
Ela começa a ler uma ficha, e ouço um pequeno click de um gravador:
Iniciando procedimento de autópsia. O sujeito é um homem, cerca de 30 anos, sem cicatrizes aparentes, marcas de balas ou ferimentos aparentes.
Marcos, por favor, prepare a câmera, sim?
Dando andamento vamos começar pela incisão junto ao ombro esquerdo descendo até o centro do tórax e daí até o ombro direito expondo coração e outros órgãos internos.
Posteriormente procederemos à coleta de secreções para análise da Patologia.
Sinto a aproximação do rapaz e desfaleço pensando na dor aguda que precederá minha morte, quando o bisturi rasgar meio peito de lado a lado e virem que meu coração ainda bate...
Morte...

......

Acordo assustado, sinto ainda as náuseas percorrendo meu corpo, mas percebo meu corpo novamente no quarto de hotel.
Nova chance?
Sonho?
Delírio?
Loucura?

Sinceramente não sei
Somos o nosso passado mas vivemos o presente do futuro

Começando

"Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente."

Drummond